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domingo, 15 de março de 2015

Filha és… mãe serás




Quando era pequenina olhava com espanto para a minha mãe.

Quando o frango assado vinha para a mesa, ela era sempre a última a servir-se: cada um escolhia o que gostava mais e, por último, lá se servia a minha mãe, sempre com um sorriso.

O ovo estrelado que rebentava na frigideira tinha sempre como destino o prato dela.

Descascava as maçãs para todos e comia a que sobrava “está tocada mas é boa, não é para desperdiçar”.

Agora eu sou, instintivamente, essa mãe, com outras carinhas pequeninas a olharem-me com espanto.

O amor está nos gestos mais simples. Está nas maçãs tocadas, no ovo estrelado que rebenta. Nas mãos frias na testa que aliviam a febre… que curam tudo.


Filha és, mãe serás …

Maria Capaz

domingo, 14 de setembro de 2014

O casal à frente dos filhos


Coitados dos pais de filhos pequenos. E dos pais de filhos médios, e para dizer a verdade dos pais de filhos grandes, também. Coitados dos pais, sim senhora, porque as crianças são absolutamente absorventes, como uma esponja que está programada para sugar todos os recursos da mãe e do pai, e de quem mais se puser a jeito, deixando-lhes pouco ou nenhum tempo para si mesmos. Bem vistas as coisas, é uma técnica de sobrevivência de uma eficácia extraordinária porque vem acoplada com a capacidade de fazer com que os pais se sintam as pessoas mais abençoadas do mundo por se poderem dedicar integralmente aquela criatura, e largamente recompensadas pelo seu empenho. Mais inteligente ainda, a recompensa chega sob a forma de uma mais valia para o próprio filho, ou seja regozijam-se porque já consegue gatinhar, diz mais duas palavras, come sozinho, é capaz de fazer todos os puzzles no Ipad, ou anda de bicicleta. A criança ganha e os pais celebram a vitória como se fosse deles, o que à partida satisfaz a evolução da espécie, e deixa todos felizes.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Carta às mães mais que perfeitas...



Querida Mãe:

Eu já te vi por aí.
Eu vi-te a gritar com os teus filhos em público, vi-te a ignorá-los no parque, vi-te a levá-los à escola antes de teres tomado banho, e de calças de pijama por baixo do casaco.
Eu vi-te a implorares aos teus filhos, vi-te a suborná-los, e a ameaça-los.
Eu vi-te a gritar feita louca com o teu marido, com a tua mãe, e com o agente de polícia no cruzamento da escola.

domingo, 7 de setembro de 2014

Quando o bebé acorda a meio da noite...





Querida mamãe,

Esta noite acordei estranhando o silêncio. Não havia barulho algum e pensei que o mundo tinha até acabado e você esquecido de mim. Coloquei a boca no trombone e você apareceu. Ainda bem. Fiquei tão feliz no calor do seu peito que acabei pegando no sono antes de mamar tudo o que precisava. Quando percebi que você ia me colocar no berço, chorei de novo. Mas não tente negar, você estava com pressa para ir dormir outra vez.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Kit para sobreviver aos primeiros dias do jardim de infância (por Eduardo Sá)






  1. É proibido insultar o jardim de infância chamando-lhe “escolinha”. Em primeiro lugar, porque é uma escola. Em segundo, porque todas as escolas ganhavam se ligassem brincar com aprender. 
  2. É proibido que os pais imaginem que o jardim de infância serve para aprender a ler e a contar. Ele é útil para aprender a descobrir os sentimentos. Para aprender a imaginar e a fantasiar. Para aprender com o corpo, com a música e com a pintura. E para brincar. Uma criança que não brinque deve preocupar mais os pais do que se ela fizer uma ou outra birra, pela manhã, ao chegar. 
  3. O jardim de infância assusta as crianças sempre que os pais – como quem sossega nelas os medos deles por mais um dia de jardim de infância – lhes repetem: “hoje vai tudo correr bem!” 
  4. Os pais estão proibidos de despedir-se muitas vezes das crianças, ao chegarem todos os dias. E é bom que se decidam: ou ficam contentes por elas correrem para os amigos ou ficam contentes por elas se agarrarem ao pescoço deles, como se estivessem prestes a ser abandonadas para sempre. Já os pais que, secretamente, gostam das duas coisas são bons amigos dos maus pais… 
  5. É proibido que as crianças vão dia sim dia não ao jardim de infância. E que vão, simplesmente quando os seus caprichos infantis vão de férias. E que não vão “só porque sim”. O jardim de infância não é um trabalho para os mais pequenos. É uma bela oportunidade para os pais não se esquecerem que se pode amar o conhecimento, namorar com a vida, nunca ser feliz sozinho e brincar, ao mesmo tempo. 
  6. No jardim de infância não tem de ser obrigatório comer até à última colher; nem dormir todos os dias. E não é nada mau que uma criança se baralhe e chame mãe à educadora (ou vice-versa). Só é mau que sofra todos os dias, meses a fio, sempre que se trata de lá ficar. 
  7. Os pais estão obrigados a chegar a horas quando se trata de uma criança regressar a casa. Prometer e faltar devia dar direito a que os pais fossem classificados como tendo necessidades educativas especiais. 
  8. Os pais não podem exigir aos filhos relatórios de cada dia de jardim de infância. Mas estão autorizados a ficar preocupados se as crianças forem ficando mais resmungonas, mais tristonhas ou, até, mais aflitas, sempre que regressam de lá. E estão, ainda, autorizados a proibir que o jardim de infância só se abra para eles durante as festas ou sempre que uma criança esteja doente. 
  9. O jardim de infância é uma escola de pais. E um lugar onde os educadores são educados pelas crianças. Um lugar onde todos se educam uns aos outros não é uma escola como as outras. É um jardim de infância. 
  10. Um dia, num mundo mais amigo das crianças, todas as escolas serão jardins de infância! 

Revista Educação de Infância, n.º 19, Porto Editora


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Um texto delicioso de Eduardo Sá!

Diário de uma criança à beira do nervoso miudinho - Eduardo Sá




"Os pais não servem como despertador. Adormecem de manhã, como todos nós, mas, ao mesmo tempo que levantam a persiana e nos chamam «Meu querido» e coisas assim, querem que, entre a cara lavada e os cereais despachados, façamos dos 0 aos 100 em poucos... minutos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Pais maus


Deus abençoe os pais maus!

Um dia, quando os meus filhos forem suficientemente crescidos para entenderem a lógica que motiva um pai, hei-de dizer-lhes:

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Elas chegaram agora junto de ti...



Elas chegaram agora junto de ti.

Elas pensavam que o mundo cabia inteiro nas paredes da sua casa, e que quem lá vivia eram os seus únicos habitantes. Terás de mostrar-lhes que não é verdade .

Elas têm poucas palavras para nomear o que as rodeia. Terás de as ajudar a encontrar as que faltam.

Elas vão ver o mundo com as cores que tu puseres em cada som e em cada gesto.

Elas vão olhar para ti, aprender o teu nome, chamar-te por tudo e por nada, geralmente por nada. Que é sempre tudo.

Vais mostrar-lhes como se vive com os outros, como se aceita quem não é igual a nós, tal como se aceita um desenho pintado com todas as cores do arco-íris.

Vais aprender a que ter de lhes dizer muitas vezes “não”, sem te deixares levar pelo seu beicinho irresistível.

Mas vais também dizer-lhes muitas vezes “sim” e sentir que é para ti que elas sorriem e estendem as mãos.

Vais levá-las ao jardim quando há sol, vais empurrar baloiços que chegam ao céu, vais assoar narizes cem vezes ao dia, vais fazê-las aprender a gostar de sopa, vais ler-lhes histórias e ensinar-lhes que todas as meninas têm direito a ser princesas e todos os meninos têm direito de ser piratas das Caraíbas.

Elas levam-te nos olhos quando à tarde as vêm buscar. E esperas que te levem também no coração.

Elas vão acreditar em ti como acreditam nas fadas e no Pai Natal.

Elas vão pôr-te os nervos à flor da pele e fazer-te esquecer, por vezes, o que aprendeste, e perder a paciência que sempre julgaste inesgotável.

Elas vão-te fazer suspirar pela hora de regresso a casa, vão fazer-te levar muitas vezes as mãos à cabeça e proferir intimamente palavras impronunciáveis. Porque elas são crianças. E porque tu és humana.

Resumindo: Elas vão fazer-te feliz para o resto da tua vida.

Alice Vieira